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Bichos do mato
2015-09-01
Bichos do mato

A Esteva nasceu no campo. O mesmo que a viu crescer e tornar-se adulta, depois velha, no fim memória.

Era cachorra mas foi deixada, com intenção, junto aos borregos ainda por desmamar. Bebeu do mesmo leite, comeu a mesma papa, depois ração. É claro que nessa altura se julgava um deles, até porque nestas idades da infância não se olha a espécie, cor ou credo a brincadeira é linguagem universal.

Quando começou a ir para o campo com o rebanho começou a sentir as diferenças. Ali cada um tinha um papel bem definido e sem grande treino ou aprendizagem deixou que o instinto ditasse o seu papel. Então com as orientações dele, o pastor, começou a fazer com um talento nato aquilo que viria a ser a sua profissão, guardadora de ovelhas.

Martinho, guardador de almas ovinas desde gaiato era um homem fechado, falava apenas e só quando tinha de ser. Era o som dos chocalhos que dominava o dia aos quais se juntavam os diferentes sons da natureza, que se iam sucedendo desde a aurora- passarada, a calma -cigarras e o crepúsculo- grilos, silêncio.

A Esteva conhecia bem as rotinas: Antes do Sol nascer, era a hora da ordenha. Ajudava o pastor a selecionar as lactantes e depois esperava, tranquila. Fechava os olhos e ouvia aqueles sons deliciosamente familiares, o leite as esguichar para as vasilhas, na sua cadência ritmada, sem pressas. Depois chegava a carrinha que acartava as bilhas. Missão cumprida.

Começava então o dia de caminhada, havia que levar as trezentas Campaniças para a pastagem verde e farta de Abril. Os cães trabalhavam em equipa, respondendo aos silvos e apitos de Ti-Martinho com uma obediência cega.

Já no cimo do monte, debaixo do chaparro, na sombra merecida, homem e cadela descansavam. Para ela era assim como que uma espécie de momento "bolha-Actimel", eram só os dois, quer fosse quando descascava uma peça de fruta, ou quando tirava do taleigo um traçalho de pão, que cortava em pedacinhos com a navalha para juntar à chouriça, que naturalmente partilhava. Intencional e democraticamente, mas sobretudo de uma forma natural e espontânea.

Mas o mais curioso (ou nem tanto) era a paixão com que Martinho versava. Eram rimas simples, por vezes sonetos ou décimas quase infantis que falavam daquilo que ele via e da forma como sentia o seu mundo, rodeado de natureza e vida a todas as horas. Como não sabia ler nem escrever (a fase de menino foi passada ali, como aprendiz) guardava na memória a sua poesia. Tinha temas diversos, alguns falavam de mouras encantadas (que seduziam pastores solitários), outras de ataques de lobos ou raposas ou de intempéries históricas. Muitas vezes as estórias falavam da sua Esteva, companheira de trabalho e descanso. Eram o reflexo do quotidiano tantas vezes duro, mas também do seu imaginário pessoal e coletivo, que todos os homens sonham.

Para este homem e bichos, todos do mato, o passar do tempo tinha uma dimensão que nós escravos do relógio temos dificuldade em imaginar. Ali não havia tempo para pressas, "as pressas dão em vagares". O horário de trabalho deste homem não existia e, no entanto era o dia inteiro, a vida inteira dedicada ao ritmo das vidas que guardava e conduzia.

Isa Calado, Médica Veterinária no Hospital Veterinário do Baixo Alentejo