Marcação Consulta
Notícia
Mas, Leish... quê
2015-10-01
Mas, Leish... quê
"Ma-ni-ose", completou a veterinária que a diagnosticou, dirigindo-se ao dono com empatia e calma. Leishmaniose era o nome da terrível doença do Sebastião. Soava a estranho e estrangeiro, fazendo lembrar nome de compositor russo, "aquele que tocava piano, sabe doutora?"...
Sebastião era um cão diferente da maioria. Foi batizado no dia em que foi encontrado pelos donos, praticantes de trekking,( que é c omo quem diz caminhada) pelo campo. Estava um dia de nevoeiro cerrado e eles tentavam de forma inglória encontrar o percurso marcado. Quando ouviram resmalhar, numa fração de segundo assustaram-se, a penumbra e a bruma aguçam os sentidos mais básicos. E eis que surge do nada mas como se tivesse sido previamente anunciado o luzidio cachorro. O brilho da roupagem preta era mesmo o que sobressaía bem como a forma como surgiu do tal nada, como o monarca, o desejado, que lhe valeu o nome escolhido pelos novos donos.
E assim ganhou casa e família. Sebastião aceitou renunciar à liberdade do campo em troca de certezas confortáveis, que muito o faziam feliz. Mantinha, no entanto, o seu espírito selvagem dando longos passeios solitários pela courela dos donos, trazendo ocasionalmente alguma caça pequena. Deixava-se acariciar, retribuindo meiguice, mas sem exageros infantis tão próprios dos seus congéneres caninos.
E assim passaram os primeiros anos, sem percalços de maior.
Vai daí um dia (há sempre um dia, moeda ao ar) os donos começaram a notar o brilho de pelo a esmorecer. "Deve ser da mudança de estação" disse a dona sem certezas. Mais tarde, e pela primeira vez sentiram necessidade de lhe cortar as unhas que de tão grandes faziam melodias de ritmos enquanto ele andava pelo soalho. "Estará a ficar velhote e não passeia o suficiente para as gastar?", questionou-se desta vez o dono...
Mas como Sebastião comia bem (assim como se não tivesse a certeza que iria haver uma próxima refeição), os donos relevaram as alterações sentidas. Quando começou a emagrecer a uma velocidade vertiginosa, apesar do apetite continuar voraz a família decidiu que precisava de respostas mais assertivas sobre o sucedido. Levaram-no à veterinária de família que sem grandes dificuldades lhes revelou a suspeita acerca da estranha doença. "Sabem, é uma doença endémica, ou seja, extremamente frequente por estas paragens". Explicou também ser transmitida por um mosquito, flebótomo de seu nome e que podia ser tratável, mas que, se já tivesse afectado órgãos internos, principalmente os rins era frequentemente fatal. As respostas que precisavam iriam ser dadas através de análises sanguíneas, que confirmariam a doença e revelariam se os rins estavam saudáveis. "Aguardem uma hora pelos resultados, pediu a médica encaminhando-os para a sala de espera."
Os donos, segurando o amigo pela trela mas mantendo-o junto a si, sentiam os olhos repletos de água, mas pragmáticos e despachados como eram, "sacaram" dos smartphones e leram tudo o que conseguiram no popular "Dr.Google". Quando a veterinária os chamou com os ansiados resultados não estavam necessariamente mais descansados, as dúvidas atropelavam-se, as informações contradiziam-se. Foi preciso fazerem um "reset" mental e abraçar as notícias que lhe eram dadas com o espírito aberto e mangas arregaçadas de quem está aqui para "o que der e vier". 
Os resultados eram agridoces: Era sim a Leishmaniose, mas a função renal estava intacta. Havia tratamento, mas sem certeza de cura, provavelmente era uma condição que o iria acompanhar para toda a sua vida, que ainda assim se esperava ser longa e feliz.
Iria fazer umas injeções durante um mês, que podiam ser dadas pelos donos em casa e também outro medicamento em comprimidos sem prazo para terminar. De início pareceu assustador, uma espécie de condenação ou missão impossível, mas sabem que mais?  Para quase tudo o ser humano encontra capacidades e força, que nunca conhecia ter, quando se encontra perante as adversidades e exigências da vida. E assim este casal, da área das letras que aprendeu a dar injeções, de uma forma exemplar cumpriu a sua parte. Sebastião não ficou atrás e saiu vitorioso desta batalha ao contrário do seu homónimo em Álcacer-Quibir. A guerra essa ia continuar, um dia de cada vez com os olhos no amanhã.

Isa Calado, médica veterinária no Hospital Veterinário do Baixo Alentejo

Publicado no jornal "Diário do Alentejo" na rubrica Veterinários sem segredos