Discurso Directo

Mia Couto
Mia Couto: "Ninguém me convence de que os animais não têm espírito..."
2009-10-02
Apaixonado por palavras e animais, é um dos mais reconhecidos autores de língua portuguesa. Nasceu em Moçambique, onde iniciou a sua carreira como jornalista, e formou-se mais tarde em Biolologia. Os bichos chamam a sua atenção desde criança e as relações que estabelecem com as pessoas constituem um assunto a investigar. Conta-nos as dificuldades que existem na conviência entre humanos e animais no seu país e as consequências de uma relação complicada pela falta de recursos. Em casa tem cães e Sandy é a preferida, sempre atenta ao seu estado de espírito.
"No sítio onde vivo, em Moçambique, a relação entre pessoas e animais não é, na realidade, como a imaginam a maioria dos estrangeiros. A fronteira entre pessoas e animais é muito ténue. Um animal pode ser uma pessoa ou uma pessoa ser um animal. Há animais que têm alma. Há animais que têm espírito. Ainda há pouco tempo estive com um caçador tradicional que me contou que antes de ir para a caça era visitado pelos espíritos dos animais. Para muitas pessoas a reacção imediata a uma afirmação destas será pensar que só pode vir de um povo primitivo, selvagem... Eu acho que não. Há aqui até uma certa sabedoria. Não faço folclore deste tipo de crenças mas estou convicto de que não somos os únicos a ter alma e este tipo de relação com os animais gera um respeito e sentido de equilíbrio muito presentes.

Mia Couto
Durante um trabalho que fiz recentemente numa província chamada Tete, foi-me contado o caso de um menino que frequentava a escola muito longe do sítio onde vivia. Tinha de sair uma hora e meia antes de começarem as aulas, atravessar o rio Zambeze de canoa, parte do percurso mais demorada, e andar um bom bocado até à escola. Mas ele saia 5 minutos antes, e os pais começaram a ficar preocupados por chegar sistematicamente atrasado. Falaram com o menino para que começasse a sair mais cedo e ele respondeu que não havia problema nenhum, que chegava sempre a horas. Estranhado o facto foram falar com o professor. Qual não é o seu espanto quando este confirma a pontualidade do filho. Perante tal enigma resolveram esclarecer o mistério e seguir o menino na manhã seguinte. Percorreram o caminho até à margem do rio onde viram o filho mergulhar e desaparecer. Nunca mais vinha à tona de água... Até que viram emergir, na outra margem, um crocodilo... Que se transformou novamente em criança!
É por isso que quando alguém me fala no crocodilo eu pergunto: “Quem é o crocodilo?”. Estou a contar isto para dizer que a fronteira que é estabelecida entre pessoas e animais, a identidade que atribuímos a cada um, naquele sítio não existe...
Se acredito? Fico tão fascinado com estas histórias que nem procuro uma explicação científica para elas. Obviamente que haverá algum equívoco mas, quando as ouço, não me apetece pensar em mais nada. A primeira atitude perante um facto que desconhecemos não pode ser a negação ou a arrogância. O conflito, a dualidade entre várias realidades é normal, mas devem ser contornados.
Existe uma grande mistificação dos animais, especialmente do crocodilo. É o animal que mais mata mas algumas pessoas até acham que não têm de se defender.
“O medo nasce do desconhecimento. Se conhecermos a linguagem dos animais e das plantas integrar-nos-emos muito melhor entre eles.”
Faço muito trabalho de campo, numa tenda. Se tenho medo dos animais? Nem por isso. Não que seja muito corajoso. Também não sou inconsciente. Apenas não me coloco em situações de confronto com eles. Houve alturas em que senti alguma insegurança. Por exemplo uma vez, num acampamento na África do Sul, não nos apercebemos que atrás de uma moita, ali perto, estava uma cria de elefante. A mãe aproximou-se e estivemos todos em perigo, porque quando é para proteger uma cria podem ser extremamente agressivas. Mas quando me apercebi já não pude sequer gritar para os outros. Acabou por correr tudo bem mas podia ter sido uma situação complicada. É preciso conhecer o comportamento dos animais, sua linguagem gestual que, além de nos permitir lidar com eles com mais segurança, é absolutamente fascinante. O medo nasce do desconhecimento. Se conhecermos a linguagem dos animais e das plantas integrar-nos-emos muito melhor entre todos.
“A ideia de que todos podem viver felizes ocupando aleatoriamente o mesmo território é uma utopia”
Também tenho trabalhado nalguns parques enquanto membro da equipa do plano de gestão. O nosso trabalho consiste essencialmente em determinar a capacidade que cada área tem de receber animais, nomeadamente elefantes, já que são estes que definem basicamente a estrutura que terá cada parque. O leão usurpou a categoria de rei mas, na África onde vivo, este estatuto é atribuído ao elefante. Todas as outras espécies são secundárias em termos de recursos. É um animal a proteger embora eu não consiga ser muito optimista quanto ao sucesso deste trabalho. Em situações de miséria existe um confronto muito grande entre o bem-estar animal e humano. O governo moçambicano está neste momento muito empenhado na defesa da fauna mas, devido à ocupação desordenada do espaço, à ausência de um plano territorial bem elaborado, e apesar de Moçambique ter uma grande área dedicada a reservas naturais, é uma tarefa muito complicada. A confusão entre pessoas e animais é tal que todos os dias morre alguém em Moçambique vítima de leões, elefantes, hipopótamos ou outros, especialmente entre as populações agrícolas, que estão, neste momento, a apelar ao governo para abater os animais. O governo tem reivindicado que aquele espaço também pertence aos animais mas, chegando por exemplo a uma altura de eleições, assiste-se a uma pressão por parte destas populações que afirmam que o melhor é irem os animais votar já que são mais protegidos do que as pessoas. A solução para este problema passaria pela transferência dos animais para parques vedados, separados das comunidades humanas. A ideia de que todos podem viver felizes ocupando aleatoriamente o mesmo território é uma utopia.
“Quando era miúdo queria ter todos os animais comigo em casa”
No meu terreno fora de Maputo costumava ter animais de muitas espécies. Mangustos, corujas, cobras... Andavam todos em liberdade. Mas desde que levei para lá os meus cães, foram desaparecendo. Por um lado gostava deles, por outro, aprecio que exista alguma distância já que alguns são transmissores de doenças, nomeadamente de raiva. Quando era miúdo queria ter todos os animais comigo em casa. Tenho fotografias dessa altura agarrado a um leopardo bebé. Uma das pessoas que sempre incentivou esta minha paixão foi uma senhora chamada Madame Trindade que recolhia muitos animais selvagens que lhe eram entregues para criar ou tratar, normalmente por terem perdido a mãe ou por estarem feridos. Tinha muitas crias de grandes felinos e outros animais. Como sabia que eu também gostava, às vezes dava-me um ou outro. Ofereceu-me um galo. De outra vez um esquilo... Os meus pais é que tinham de me chamar à realidade e explicar-me que não podia ter todos os bichos comigo em casa. Isto contribuiu muito para a visão que vim mais tarde a ter do mundo. A tendência é querermos ter tudo aquilo que amamos. Mas o verdadeiro amor passa pela capacidade de abdicar desse sentimento de posse e em relação aos animais é muito importante estarmos conscientes disso.
“...não me podiam mentir porque sabiam que os cães, quando falassem comigo, me iam contar a verdade!”
Os meus cães são todos de raça Labrador com a excepção de um que é cruzado de perdigueiro. Acho que todos eles têm uma personalidade diferente mas, para mim, a que se destaca é a mais velha, a Sandy. Tem uma perspicácia e uma capacidade de leitura do que se passa dentro de mim que é assustadora. Houve uma situação de roubo lá em casa e reuni os empregados todos. Não sou de me zangar mas estava mesmo furioso. No entanto, mesmo muito zangado, o meu tom de voz não se alterou. A Sandy estava ao meu lado a ouvir-me falar como de costume, mas desta vez não parava de ladrar. Apercebeu-se de que algo estava mal. Isto é só um exemplo de ela sabe sempre como me sinto por dentro. Às vezes, quando estou a escrever, é a única que deixo ficar ao pé de mim porque sabe sempre quando pode brincar e quando preciso de sossego. Ninguém me convence de que os animais não têm espírito...
Os cães em África nem sempre são bem tratados. As pessoas vivem com cães por perto mas não os domesticam, não os acarinham ou alimentam. Acham estranhíssimo a forma como lidamos com eles. Aliás, consideram que, se lidamos com eles desta forma é porque são mais do que simples animais. Os dois rapazes do campo que tomam conta da minha casa estão convencidos, pelo facto de eu falar com o meu cão, que ele não pode ser só um cão. Deve ser alguma pessoa, que às vezes é um cão... Tratam os meus cães como se fossem seres superiores. No outro dia houve uma luta entre dois dos machos e os rapazes estavam com medo de me dizer, mas a conclusão a que chegaram foi: não me podiam mentir porque sabiam que os cães, quando falassem comigo, me iam contar a verdade!"
Conteúdos relacionados